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BRASIL, Nordeste, TERESINA, SAO JOAO, Mulher, Portuguese
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PROGRAMAÇÃO DO II ENCONTRO PIAUIENSE DA LUTA ANTIMANICOMIAL
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Dia : 29/05/08
Horário: 08:00h
Palestra de abertura: O contexto atual e a trajetória do MNLA no Brasil
Palestrante: Nilo Neto - SC
Horário: 10:00h
Palestra: A importância do Movimento Antimanicomial para o impulsionamento da Reforma Psiquiátrica no Piauí
Palestrantes: Edna Melo (Gerente de Saúde Mental do Estado do Piauí)
Horário: 14:00 h
Mesa Redonda: A construção de práticas antimanicomiais no cotidiano dos serviços substitutivos
Convidados:
Fátima (Coordenadora do SRT da Tabuleta);
Miguel Ângelo (Coordenador do CAPS de Oeiras);
Luciana (Coordenadora do SRT de União);
Dr.Cristovão (Coordenador do CAPS Leste);
Coordenador da Mesa: André Café
Horário: 16:00 h
Palestra: O papel dos movimentos sociais na conquista dos direitos
Palestrantes:
Edileuza Lima (Amigo no Ninho-Rede Psicossocial de Apoio e Suporte em Saúde Mental no Estado do Piauí)
Luis Alfeu (Presidente da Âncora)
Horário: 20:00h
Apresentação da peça: Magno-Pirol: o corpo na loucura
Local: Teatro João Paulo II
Dia: 30/05/08 (sexta-feira):
Horário: 08:00 h
Mesa Redonda: Formação antimanicomial: porque e para que ensinamos?
Convidados:
Prof. Lúcia Rosa ( Assistente Social da UFPI)
Prof. Emanoel (Psicólogo da FACIME /FSA)
Prof. Lucíola ( Enfermeira da FACID)
Prof. Alexandre Parente (Psiquiatra da FACID)
Coordenador da Mesa: Vitor Marchel
Horário: 10:00h
Palestra: Existe uma psicopatologia psicanalítica?
Palestrante: Luis Achilles Furtado – Psicanalista UFCE
Horário: 14:00h
Mesa redonda: A defesa dos direitos dos portadores de transtorno mental
Convidados:
Dra. Cláudia Seabra (Ministério Público)
Deputada Flora Izabel
Rep. da Comissão dos Direitos Humanos da OAB
Rep. Da Comissão dos Direitos Humanos do CRP – Valéria Alcântara
Vereador João Cláudio
Coordenador da Mesa: Alderon Marques
Horário: 16:00h
Mesa redonda: A experiência subjetiva do
sofrimento psíquico: a visão do usuário
sobre sua condição e seus direitos
Convidados: Jair Scarcella
Cristovão Souza
Herold Buss
Maria Rosa
Osvaldo
Coordenador da Mesa: Antoniana Teixeira
Horário: 20:00h
Apresentação da peça: Magno-Pirol: o corpo na loucura
Dia 31/05/08
Horário: 08:00 h
Mesa redonda: Percepção e incidência dos transtornos
mentais nos movimentos sociais
Convidados: Grupo Matizes
MOHAN
RNP+
UMP
GENDAC
Rede Estadual de Cultos Afro Brasileiros e Saúde do Piauí
Coordenador da Mesa: Edileuza Lima
Horário: 10:00h
Exibição do documentário: VOZES DA LOUCURA de Leonardo Sales
Horário: 10:30h
Lançamento do livro “Saúde Mental e Assistência Social: tecendo a rede de experiência no Piauí
Escrito por Âncora às 16h42
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cartaz 18 de maio
ENCONTRO DO DIA 18 DE MAIO – DIA DO MOVIMENTO NACIONALDA LUTA ANTIMANICOMIAL-MNLA
“Fortalecendo a construção de práticas antimanicomiais nos serviços substitutivos”
29,30 E 31 DE MAIO/2008
Palestras e mesas redonda:
· O contexto atual e a trajetória do MNLA no Brasil
· A importância do MNLA para o impulsionamento da Reforma psiquiátrica do Piauí
· A construção de práticas antimanicomiais no cotidiano dos serviços substitutivos
· O papel dos movimentos sociais na conquista dos direitos
· Formação antimanicomial: porque e para que ensinamos?
· A cultura como um viés na inclusão social
· A defesa dos direitos dos portadores de transtorno mental
· A experiência subjetiva do sofrimento psíquico: a visão do usuário sobre si, sua condição e seus direitos
· A incidência dos transtornos mentais nos movimentos sociais
· O contexto atual da Reforma Psiquiátrica no Piauí
· Apresentação do documentário: Vozes da loucura
Convidado Especial: Nilo Marques Neto ( Militante do MNLA e idealizador da Caminhada do Orgulho Louco)
Promoção: Ao se inscrever no Encontro você ganhará um ingresso para a peça: Magno Pirol, de Graco Alves, inspirada no livro “A história da loucura”, de Michel Foucault. O espetáculo convida a platéia a sair da posição de espectador, com um debate iniciado por dois psicanalistas que acompanham o ator.
INFORMAÇÕES : 88256679 / 94099065 /32333796 OU
e-mail: ancora.pi@ig.com.br
ORGANIZAÇÃO:ÂNCORA – PI( Associação dos Portadores de Transtorno Mental, familiares e pessoas interessadas na Saúde Mental do Piauí.)
Escrito por Âncora às 18h04
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Olá,companheiros, informamos a primeira reunião da ÂNCORA em 2008.
05/01/08 ás 9:00h
Local: Centro Social da Primavera
Pautas: Inauguração da placa da ÂNCORA
Posse do novo Conselho Executivo e Fiscal
Divulgação do calendário de atividades de 2008
Informações: 32333796 /94099065
Escrito por Âncora às 12h50
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Acerca da Proposta de uma Federação de Associações de Usuários e Familiares da Saúde Mental no Brasil atual
Prof. Eduardo Vasconcelos, PhD
Prof. Adjunto, Escola Serv. Social UFRJ
Militante do movimento antimanicomial
Como militante do movimento de reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial desde os anos 80, e pesquisador no campo, venho me manifestar em relação à proposta feita por alguns companheiros após a realização do Encontro Nacional “20 anos de luta por uma sociedade sem manicômios”, de uma federação de associações de usuários e familiares no campo da saúde mental no Brasil. Baseado nas pesquisas e estudos que venho realizando sobre o movimento de usuários e familiares no Brasil e nos principais países do mundo, tenho a plena convicção de que ESTA PROPOSTA É EQUIVOCADA PARA A ATUAL CONJUNTURA BRASILEIRA. A seguir, exponho minhas razões:
Escrito por Âncora às 12h47
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1) Uma proposta de federação de associações dentro de um movimento social popular pode ter uma primeira aparência interessante, por que interpela idéias de superação da fragmentação, união, capacidade de intervenção no cenário político e legislativo, etc. Entretanto, esta aparência esconde riscos que devem ser analisados com muito cuidado, e há muitos exemplos históricos no Brasil de propostas semelhantes que fracassaram ou provocaram múltiplos problemas. Penso então que a proposta deve ser avaliada com o máximo de isenção, em um debate político e acadêmico mais qualificado, de forma o mais independente possível de quem a defende ou discorda dela.
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2) Inicialmente, penso que nenhuma proposta pode ser feita em nome do Encontro de Bauru. Acho que nós, militantes do movimento, particularmente as suas lideranças históricas, temos legitimidade e capital político suficiente para levantarmos propostas em nome pessoal ou feitas a partir de entidades em que atuamos, mas o encontro de Bauru não teve nenhum caráter, momento ou instância deliberativa que pudesse tomar uma resolução em nome do movimento. Fui convidado oficial do encontro para uma das duas mesas em que se discutiu exatamente a organização dos usuários e familiares, e pelo contrário, em ambas as mesas constatamos as virtudes, mas principalmente a atual fragilidade do movimento de usuários e familiares no Brasil, levantando várias propostas para o seu fortalecimento, mas em nenhum momento alguém apresentou qualquer indicação ou proposta no sentido de uma federação de associações.
3) O convite da coordenação do Encontro de Bauru para que eu fosse discutir o tema não foi aleatório. Sou pesquisador I-C com bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq, e venho pesquisando sistematicamente sobre o assunto desde 1985, com inúmeros livros, artigos e trabalhos já publicados, que podem ser consultados (* [lista abaixo]). Realizei nos últimos três anos uma pesquisa sobre as características das associações de usuários e familiares do campo da saúde mental no Brasil, cujos resultados estão para ser divulgados (veja indicação de trabalho no prelo, 2008), mas posso adiantar alguns dos resultados, que são significativos para esta discussão:
a) De uma amostra de 107 dispositivos associativos que puderam ser contatados pela pesquisa em todo o país, com muitas dificuldades de acesso, se retirarmos as associações de caráter mais amplo e independentes (do tipo AA e afiliados, CVV, Remar, etc, que foram computados cada uma apenas como um dispositivo), bem como os fóruns e núcleos do movimento antimanicomial, temos um conjunto de 90 dispositivos do que hoje entendemos como nosso campo da saúde mental, a maioria delas associações de usuários e familiares, mas incluindo também algumas ONGs, que geralmente usam também o nome de associação.
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b) Quando falamos associação de usuários e familiares, na verdade temos uma realidade bem diferente. Quando perguntados sobre o tipo de participantes, de nossa amostra que respondeu a pergunta cerca de 90% são associações mistas (usuários, familiares e trabalhadores/técnicos de saúde mental). Às vezes, aparece a categoria de “amigos”, que podem incluir os trabalhadores ou pessoas independentes identificadas com a causa e assumidas como membro participante da associação.
c) Quando perguntados sobre a ligação com serviços de saúde mental, entre as associações que responderam a esta pergunta, 72% são ligadas principalmente a CAPS, 10% apenas utilizam o espaço destes serviços, e 18% não têm ligações com eles. Assim, o padrão mais freqüente, em relação a associações locais e municipais, é constituído por aqueles dispositivos fundados a partir de CAPS e cuja dinâmica depende integralmente da vida e do apoio deste serviço.
d) Além disto, os trabalhadores têm um papel importante e talvez central nas associações. Quando perguntados sobre o tipo de dedicação dos membros e horário de funcionamento, há dois padrões típicos: plantões ou atendimento de várias horas por dia, vários dias da semana (74%), e horário específico de reunião ou encontro, podendo ser uma vez por semana, quinzenal ou mensal (26%). Portanto, a maioria apresenta plantões ou atendimento, e o cruzamento dos dados nos permite inferir que elas se referem a associações ligadas a serviços, nas quais um técnico membro da associação fica à disposição para o atendimento ao público, em questões ligadas à associação
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. Este tipo de plantão possibilita uma real ampliação do acesso aos interessados, pois apenas a reunião periódica fecha muito este acesso aos membros mais informados da associação, que não podem estar presentes todos os dias nos serviços e dos projetos tocados por ela. Porém, isso implica em um comprometimento da autonomia nos usuários e familiares dentro da associação, dada a presença mais ativa e regular dos técnicos, que acabam assumindo o papel de principais protagonistas das associações no cotidiano. Da mesma forma, significa uma dependência e fragilidade organizacional e política muito grande das associações, particularmente em relação aos técnicos e aos serviços.
Escrito por Âncora às 12h47
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e) Os dados sobre a sustentação financeira das associações também são importantes. Na maioria das associações pesquisadas, os usuários contribuem com quantias pequenas, de 2 a 5 reais, geralmente sem haver obrigatoriedade em relação a isso. Por incrível que pareça, apesar de pequena, a contribuição parece ser importante do ponto de vista financeiro, pois mantém um fundo, mesmo que muito limitado, para pequenas despesas comuns. Entretanto, a observação participante, as entrevistas e a experiência de outros movimentos populares indicam haver aqui mais uma função simbólica, pois a contribuição visa mais mobilizar o senso de pertencimento e a necessidade de participação e compromisso de cada um com as atividades e com a associação.
f) Quanto às principais atividades realizadas, nota-se uma clara tendência da maior parte das associações (56%) em oferecer oficinas, cursos ou projetos de geração de trabalho e renda
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. Estas atividades aumentam a empregabilidade, o poder contratual, a auto-estima e o empoderamento dos usuários na vida social, particularmente em um contexto de desemprego estrutural, bem como colabora na luta contra o estigma associado ao portador de transtorno mental e à loucura . Além disso, parte dos ganhos dos projetos já consolidados pode ser destinada à manutenção das próprias atividades. A observação direta e as entrevistas mostraram que estes projetos são considerados importantes, particularmente como forma de estimular a auto-estima e valorizar o tempo do uduário ou familiar, mas a sua escala e a renda auferida geralmente é ainda muito baixa.
g) Podemos dizer então que o perfil típico das associações no Brasil é de uma associação mista (usuários, familiares e técnicos), fundada depois de 1992, criada a partir de e ligada a um CAPS, com um funcionamento central baseado em plantão ou atendimento regular por técnico do CAPS e membro da associação, com uma reunião quinzenal ou mensal, cobrando uma contribuição financeira quase simbólica (2 a 5 reais), apoiando a reforma psiquiátrica, expressando sua missão em termos da defesa dos direitos do usuário e familiar, e desenvolvendo pelo menos alguma oficina, projeto ou atividade de trabalho e geração de renda.
Se pudermos tirar algumas indicações mais conclusivas destes dados, não há dúvidas de que estamos tratando de uma maioria absoluta de associações com as seguintes características:
- uma enorme fragilidade organizacional e política dos usuários e familiares, com forte dependência dos serviços e da atuação dos trabalhadores de saúde mental;
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- uma enorme fragilidade na sustentação financeira de sua organização;
- a realidade mais visível destas associações, e que aparece em nossos encontros, dos militantes mais politizados e atuantes, correspondem ainda e infelizmente, a um grupo de liderança muito pequeno, com um pouco mais de recursos culturais e pessoais, que possibilita esta militância, mas que não reflete a realidade da maioria absoluta das associações. Mesmo assim, as entrevistas realizadas com estas lideranças mostram que muitos deles têm parcos próprios para a militância, dependendo de serem financiados para participar de quaisquer encontros ou reuniões nos conselhos de controle social e principalmente em eventos fora de sua cidade;
- quaisquer propostas para estimular o movimento de usuários e familiares no país implicam em partir da realidade concreta delas, e exigem, a meu ver, um conjunto de propostas muito mais voltadas para o fortalecimento de sua organização pela base. Mas abaixo, listo algumas das quais considero mais adequadas para o presente momento.
4) Avançando o debate em relação à proposta feita, é possível agregar alguns dados mais gerais sobre os movimentos sociais populares no país. Na fase inicial dos movimentos, há uma grande dificuldade de lidar com as diferenças político-ideológicas e com entidades centralizadoras, que tendem a rachar os movimentos, e portanto, até um maior amadurecimento organizacional e político, eles tendem a manter formas de centralização provisórias e apenas executivas, mesmo que isso implique em uma menor eficácia de intervenção no plano federal. Esta estratégia tem em vista a constatação, pelos movimentos sociais mais autonomistas e pluralistas, da cultura política patrimonialista do país e de algumas tendências da própria esquerda internacional e nacional , que gera a tendência dos partidos e grupos políticos aparelharem as organizações centralizadoras
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, como ocorre por exemplo no Brasil no movimento sindical, no movimento estudantil, etc. Daí, a multiplicação de federações, confederações e dos próprios movimentos, que racham e suas várias vertentes competem entre si, como acontece hoje entre as várias organizações do movimento de trabalhadores sem terra, enfraquecendo a luta popular mais geral no campo. Um fenômeno semelhante está sendo constatado nos conselhos de política social, com forte aparelhamento das organizações corporativas e partidos políticos, enfraquecendo a presença das organizações e movimentos populares mais autônomos, que têm menor capacidade de articulação e de financiamento para a militância política.
Escrito por Âncora às 12h46
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5) É bom lembrar que esta análise estava implícita nos cuidados que tivemos no próprio movimento antimanicomial. A centralização sempre se deu apenas na forma de secretarias executivas, sem autonomia para tomar decisões por conta própria, na medida em que as principais decisões eram tomadas nos encontros nacionais, nos quais eram tirados os representantes para os conselhos no plano federal. Podemos relembrar também que o principal motivo do racha do movimento em 2001, em Miguel Pereira, se deu na discussão das formas de centralização, no espectro de representação dos vários setores do movimento. Embora o pluralismo seja sempre salutar, a divisão do movimento da forma em que se deu, em um contexto de fortalecimento da psiquiatria convencional e de uma campanha corporativista dos médicos no país (vejam por exemplo a reportagem de O Globo de 09/12/2007), acabou colocando água no moinho deles. Por exemplo, no ano de 2006, quando eles estavam em plena campanha para abocanhar a Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde, na campanha presidencial, tivemos muitas dificuldades de articular estratégias comuns. Uma dos grandes vitórias deste Encontro de Bauru foi a possibilidade nos encontrarmos, reativarmos nosso afeto pelos companheiros de luta comum, de conversarmos, aumentando as chances de abrir canais mais permanentes de conversa e de geração de uma agenda comum de lutas. Assim, temos que considerar que a questão de qualquer organização centralizadora dentro do movimento é altamente explosiva e divisionista, e qualquer proposta neste sentido tem que ser muito bem debatida e consensuada
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.
6) Outro aspecto importante a considerar nos processos de reforma sanitária e psiquiátrica no Brasil e nos países hegemonicamente católicos e de língua latina, e portanto de uma cultura mais hierárquica (por exemplo, Itália, Espanha, Portugal e França), é o papel político mais proeminente dos profissionais como atores políticos, e secundariamente, das associações de familiares. Nos países do Norte da Europa e de língua inglesa, com uma cultura mais individualista e autonomista, o protagonismo dos usuários tem sido muito mais relevante. O perfil das associações brasileiras é misto, ou seja, tem sua singularidade, mas ainda reflete esta cultura e a dependência dos usuários e familiares do ativismo dos profissionais.
6) A análise dos dados das várias pesquisas que venho desenvolvendo mostra que uma questão central das associações de usuários, familiares e trabalhadores e do próprio movimento antimanicomial é o sustentação financeira da organização. As principais atividades centralizadoras (encontros, eventos, seminários) têm duas fontes principais de financiamento: as coordenações de saúde mental estatais e as organizações corporativas dos profissionais de saúde mental (em que se destaca o sistema conselhos de psicologia) e, eventualmente, as instâncias de controle social, no caso das conferências nacionais. Em outros termos, qualquer evento ou atividade em nível nacional depende diretamente do financiamento destas instâncias. Se juntarmos então os vários aspectos indicados acima, ou seja, a tendência da cultura política nacional de aparelhamento das organizações centralizadoras, a cultura hegemonicamente hierárquica com protagonismo central dos profissionais, e a fragilidade organizacional e financeira, com a enorme dependência das atuais organizações de usuários e familiares no país em relação aos profissionais e aos serviços, temos todos os ingredientes para criar uma organização centralizadora que será capturada pela cultura do aparelhamento e pelas instâncias que hoje financiam o movimento (o Estado e as organizações corporativas) e que também implicará em um profundo divisionismo do movimento de usuários e familiares em um estágio muito prematuro, com enfraquecimento mais geral de nossa luta antimanicomial mais geral
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.
7) Os resultados das pesquisas e estudos que venho realizando, inclusive no plano internacional, e a concepção de organização política que acho mais compatível com um movimento popular pluralista e com ampla base de massas, indicam na direção contrária: a necessidade de uma série de medidas para fortalecer as associações de usuários e familiares pela base, estimulando o seu empoderamento e sua autonomia, diversificando suas fontes de financiamento e mantendo formas de centralização por enquanto mais provisórias, através de fóruns, núcleos municipais e regionais, encontros nacionais, etc. Nessa direção, venho propondo o seguinte plano de princípios e propostas abaixo.
PRINCÍPIOS E PROPOSTAS PARA O FORTALECIMENTO DAS ORGANIZAÇÕES DE USUÁRIOS E FAMILIARES NO CAMPO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL
1) Fundamentação política e normativa das propostas:
a) A Lei 8.142 de 28/12/1990 do SUS, que institui os conselhos de saúde, estabelece o status específico do usuário do sistema, de forma diferenciada de representantes do governo, prestadores de serviços e profissionais. Há claramente uma discriminação positiva na estrutura de participação política no SUS.
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b) Em tese, as medidas de discriminação positiva podem ser civis, políticas e sociais:
- As medidas civis, como a imputabilidade e a tutela, são muito excepcionais e só aplicáveis de forma ética em situações extremas.
Escrito por Âncora às 12h45
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- As medidas políticas visam estimular e garantir a representação e a participação política dos usuários e familiares na sociedade e particularmente nos conselhos do SUS;
- As medidas sociais podem incluir as bolsas do Programa de Volta para a Casa, o Benefício de Prestação Continuada, as bolsas de trabalho, os serviços residenciais terapêuticos , etc.
2) Direção geral:
a) Estabelecer hoje a prioridade de aumentar o poder contratual e o empoderamento crescente, gradual, mas firme e decidido, dos grupos, associações e lideranças de usuários e familiares, de forma cada vez mais coletiva, de base, e autônoma em relação aos técnicos e serviços de saúde mental, por meio de
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medidas de discriminação positiva das organizações de usuários e familiares.
b) Criar e fortalecer as bases econômicas e institucionais concretas para possibilitar uma autonomização real e auto-sustentada dos usuários e familiares no futuro.
3) Propostas concretas de estímulo à participação e organização de usuários e familiares:
a) Programa de cadastramento e de inclusão digital das/para as organizações de usuários e familiares para as coordenações estaduais e municipais:
A proposta é abrir um cadastro específico para estas associações, e a comprovação de atividades por um período mínimo de tres meses a capacitaria a receber:
- provisão de um computador desk top completo, com impressora, dispositivos de som e câmera digital;
- viabilização de acesso a cursos de informática para suas lideranças principais, escolhidas pelo conjunto da associação;
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- viabilização de acesso pago a internet enquanto durar suas atividades;
- estimular o uso, pelo conjunto das associações municipais ou estaduais, de reuniões regulares do tipo tele-conferência, via Internet, para troca de informações e articulação de iniciativas comuns.
b) Desenvolvimento de pesquisas para se conhecer melhor a realidade das associações e dispositivos de organização em cada região ou estado, e em todo o país:
É importante conhecer melhor estes grupos e associações, em sua história, composição dos associados, dinâmica de organização, projetos em desenvolvimento, desafios e dificuldades, etc, para que se possa tomar iniciativas mais adequadas de estímulo e desenvolvimento.
Escrito por Âncora às 11h05
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c) Uma política ativa de comunicação regular, de divulgação e apoio estratégico às ações e projetos desenvolvidos pelas associações:
As coordenações nacional, estaduais e municipais de saúde mental, bem como os núcleos do movimento antimanicomial, a partir de contatos regulares com estes dispositivos, devem desenvolver um programa ativo de busca de informações e de contato com as lideranças e grupos, no sentido de divulgar e apoiar suas ações e projetos autônomos.
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d) Criação, pelas coordenações de saúde mental, de fundos públicos para financiamento de pequenos projetos autônomos de associações de usuários e profissionais, com seleção pública para os melhores projetos em realização ou a serem implementados, bem como de uma premiação periódica para os melhores projetos:
No orçamento da saúde, é possível estabelecer um pequeno fundo com cronograma anual ou bi-anual para financiamento de pequenos projetos autônomos de associações de usuários e familiares.
Haveria um processo de seleção pública dos melhores projetos, a partir de uma comissão de júri reconhecidamente competente e isenta, para escolha dos apoios a projetos já existentes ou a serem implementados.
Além disso, se estabeleceria uma premiação de projetos já implementados, valorizando seus autores e estimulando a difusão de iniciativas semelhantes.
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e) Criação nas coordenações de saúde mental e no movimento antimanicomial de equipes específicas para produção de material de educação popular no campo da saúde mental:
Escrito por Âncora às 11h03
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Esta equipe deverá produzir - de forma orgânica com as experiências e com as lideranças de projetos de associações -, cartilhas, vídeos e DVDs, bem como outros meios, descrevendo, divulgado e discutindo os principais temas e desafios em saúde mental, do ponto de vista dos usuários e familiares.
f) Criação de esquemas de trabalho de “oficineiro em saúde mental” para lideranças de usuários e familiares em processos mais avançados de recuperação e de experiência, com capacitação e supervisão específica:
Esta proposta me parece ser viável já, no curto prazo. Visa consolidar, gradualmente, a figura de “oficineiro” em toda a rede de serviços de saúde mental, a partir de algumas
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experiências-piloto em cada município ou estado, a serem implementadas imediatamente e devidamente avaliadas.
Trata-se de um sistema semelhante ao de oficineiro de arte ou de artesanato, já existente em saúde mental, ou de técnico de reabilitação em dependência química, já consolidado há mais de duas décadas, ou dos agentes comunitários de saúde (ACS) do Programa de Saúde da Família.
Neste esquema, lideranças de usuários e familiares em níveis mais avançados de recuperação e experiência deverão passar por capacitações específicas e deverão ter todas as condições necessárias para promover iniciativas próprias de grupos, associações e projetos, através de bolsa temporária seguida por assalariamento formal CLT), dentro dos serviços de saúde mental e em espaços públicos em sua vizinhança.
Mais tarde, quando esta modalidade já estiver consolidada, é possível inserir este posto na carreira de servidor público.
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Para se iniciar este processo, um manual para grupos de ajuda e suporte mútuos foi montado por nós, do Projeto Transversões da UFRJ, e está disponível para os interessados, através do e-mail emvasconcelos@mls.com.br .
Os grupos podem ter o apoio inicial e temporário de profissionais, em sua facilitação, mas gradualmente deverão caminhar para serem facilitados apenas por usuários ou familiares. Para isso, além de cursos de capacitação, deverão ser disponibilizados dispositivos de supervisão para os facilitadores de grupos, para se discutir regularmente o desenvolvimento dos grupos.
Escrito por Âncora às 11h03
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Gradualmente, os oficineiros mais experientes deverão ser convidados para participar na capacitação e educação permanente de trabalhadores e profissionais de saúde, em pesquisas de avaliação de serviços, nos conselhos de política de saúde e saúde mental, na produção de material de educação popular, etc.
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f) Promoção de cursos de capacitação de conselheiros em saúde e saúde mental, incluindo itens de educação política:
Visa à oferta, integrada ao conjunto do SUS, e de forma regionalizada dentro dos Estados, de cursos para conselheiros, representantes da sociedade civil nos conselhos de saúde.
g) Criação e implementação gradual na rede de saúde mental do “Plano de Crise”:
Trata-se da discussão e implementação gradual, a partir de experiências-piloto, de um cartão de identificação, com informações e procedimentos imprescindíveis a serem adotados em caso de crise psíquica, por familiares e amigos do usuário, e particularmente por parte de serviços e profissionais de saúde mental.
O conteúdo do cartão é discutido previamente por cada usuário, fora de uma situação de crise, em comum acordo com os profissionais, com a associação de usuários e familiares de seu serviço e seu grupo de ajuda mútua, e indica informações relevantes
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para se conhecer sua situação e instruções de como o usuário gostaria de ser tratado em uma crise.
Esta experiência vem sendo reivindicada pelo movimento de usuários e implementada em alguns países do norte da Europa, particularmente na Inglaterra e Holanda, e hoje há uma comissão na cidade do Rio para apresentar uma proposta prévia.
4) Uma discussão de fundo: projetos autônomos de associações de usuários e familiares e a terceirização neoliberal
Escrito por Âncora às 11h02
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bMinha tese: defender o apoio estatal a projetos autônomos de associações de usuários e familiares não significa defender a precarização e a terceirização neoliberal, pelas seguintes razões:
a) Toda política pública engajada deve estimular uma faixa de projetos piloto inovadores não diretamente estatais, com participação popular direta e com uma organização mais flexível, plural e autônoma. Ela possibilita a experimentação e a escolha daqueles com maior sucesso e legitimidade para entrarem na dura concorrência intersetorial dentro do Estado, por reconhecimento institucional e por verbas estatais, como também pela alocação de servidores públicos.
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b) A ausência desta faixa de experimentação tende a paralisar as forças instituintes e a matar a criatividade e a inovação no campo, gerando a institucionalização e o enrijecimento gradual dos programas e serviços públicos existentes.
c) As iniciativas mais efetivas e regulares devem ser reconhecidas, financiadas e assumidas pelo Estado.
d) A faixa de experimentação e projeto autônomos devem necessariamente significar uma parcela muito pequena do conjunto dos gastos e das ações mais gerais em saúde mental, estes sim implementados na forma de programas estatais não terceirizados.
e) As decisões e projetos de experimentação deverão estar inseridos nos dispositivos institucionalizados de visibilidade, controle social e prestação de contas do Estado, que no Brasil ainda requerem uma normatização mais rigorosa;
f) Na medida em que os projetos ganham reconhecimento e regularidade, o movimento antimanicomial e os próprios oficineiros de saúde mental deverão lutar para garantir boas condições de trabalho e salário, contratos via CLT,
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e seleção por meio de concursos públicos, o que já vem sendo conquistado pelos ACS’s no país.
g) No futuro, os oficineiros regulares deverão ser inseridos na carreira de serviço público, com concursos públicos regulares e plano de cargos e salários, como vem sendo reivindicado e conquistado gradualmente pelas organizações dos ACS’s e pelo movimento sanitário.
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Escrito por Âncora às 10h59
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FÓRUM SOCIAL POR UMA SOCIEDADE SEM MANICÔMIOS: APONTAMENTOS E REFLEXÕES SOBRE OS 20 ANOS DO MOVIMENTO NACIONAL DA LUTA ANTIMANICOMIAL
O ESTADO E A ROTA DA MORTE NO BRASIL: O CIRCUITO DE EXTERMÍNIO DOS POBRES, NEGROS E DIFERENTES
Nada é impossível de mudar
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceites o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.
(B. Brecht)
Escrito por Âncora às 18h34
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O Movimento Nacional da Luta Anti-Manicomial (MNLA) surgiu no Brasil como um grande movimento social que pretendia enfrentar e destruir todos os dispositivos disciplinadores e segregadores que impedem o pleno desenvolvimento do ser humano, e que anulam seu potencial criativo e sua condição plena de cidadania. Entretanto, a redução das estratégias de luta do MNLA— em suas diversas versões—, o transformou em mero guardião e operador das políticas de saúde mental oficiais – de Collor, FHC a Lula –, rebaixando sua vocação de movimento social amplo, articulado com as forças sociais sindicais e populares, em movimento específico, assistencialista, voltado à impossível humanização das relações manicomiais. Perdendo o referencial político da transformação social profunda, que combate todas as formas de discriminação e de espoliação do ser humano, o MNLA atribui como vitória a mera contabilização de serviços financiados pelo governo, de caráter pretensamente substitutivos.
A despolitização do MNLA – cujo sintoma mais nítido tem sido sua divisão interna de caráter patrimonialista e clientelista –, e as despolitizações da Reforma Psiquiátrica e da Reforma Sanitária, têm sido caldo de cultura para a acumulação capitalista na saúde, que amplia cada vez mais sua hegemonia, possibilitando novo ciclo de discursos e práticas neo-manicomiais. .
Enquanto isto, as instituições repressivas e as condições aviltantes de vida ampliam sua capacidade de extermínio dos diferentes e dos segmentos mais discriminados pela sociedade.
A superação desta cultura e prática manicomiais – violenta, preconceituosa e excludente – somente ocorrerá pela organização e luta conjunta das organizações interessadas em combater todas as formas de discriminação e segregação; seja contra a opressão racista; a violência contra segmentos da sociedade; a exploração dos trabalhadores; ou o preconceito a portadores de patologias e deficiências; compreendendo que este embate se processa no contexto da luta de classes na sua forma atual.
Com o propósito de resgatar as preocupações e pressupostos históricos do MNLA, no sentido de seu fortalecimento interno e sua independência enquanto movimento social, inúmeros militantes estão construindo novos espaços de discussão, de produção de propostas políticas, de reflexão crítica e de pautas de luta para a construção de uma Reforma Sanitária e Psiquiátrica Anti-Manicomiais, que não se desvinculem das lutas dos movimentos sociais, sindicais e populares, urbanos e rurais. Caminho que não se confunde com as disputas e divisionismos personalistas, e não se ilude com as artimanhas do poder, que têm constantemente cooptado discursos, lideranças e o próprio movimento, através do ardil da ordem que procura esmagar nossas mais caras utopias, em especial a construção de uma sociedade fraterna, igualitária e verdadeiramente antimanicomial.
O sofrimento mental tem suas origens, fundamentalmente, na dureza das relações humanas, na exploração e competição no trabalho, no desemprego, nas más condições de vida, na falta de um teto para morar, ou de terra para trabalhar, na falta de lazer e de prazer. A “loucura” é uma das manifestações da capacidade do ser humano se defender das dificuldades da vida e como uma das diversas formas de expressar pensamentos e sentimentos. No entanto, uma cultura imposta pela sociedade capitalista legitima a prática de excluir toda pessoa diferente, que não se adapte aos padrões e normas. Os Manicômios alimentam e legitimam esta ação da sociedade disciplinadora e excludente, servindo de modelo para o funcionamento de outras instituições repressivas.
A violência institucional contra os indivíduos — cujos mecanismos procuram adaptar, normatizar e disciplinar condutas, comportamentos e pensamentos —, tem como objetivo criar uma homogeneidade social aparente que esmague a real diversidade dos seres humanos e que oculte os produtos da exploração capitalista e da luta de classes. Ela permeia todos os espaços de convivência social procurando otimizar o processo produtivo, criando agentes sociais passivos e, portanto, disponíveis para a divisão social do trabalho. O caldo cultural da violência é produzido através de um dinamismo complexo de desqualificação dos indivíduos, que implica em proscrição e prescrição de subjetividades, agressão/morte psíquica, morte social e, no extremo, mas não raramente, em agressão/morte física.
Numa relação complementar aos processos sociais de esmagamento das subjetividades há sempre uma instituição, legitimada, que vem garantir os parâmetros da norma estabelecida, através da repressão aos que relutam à disciplinarização, sequestrando, depositando e “tratando” para, finalmente, indicar dois caminhos desprovidos de projetos: o retorno ao convívio social, o mesmo que produziu as condições de sua exclusão, ou a segregação definitiva.
Assim é na Família, no Trabalho, na Escola, onde se produz a desqualificação, e se golpeiam as singularidades. É assim com a Febem, a Prisão, o Hospital Psiquiátrico, onde se reproduzem com mais intensidade e legitimidade, os processos sociais de disciplinarização,e cuja complementaridade garantem a hegemonia dos padrões de conduta e valores, imprescindíveis para o perfeito funcionamento do modo de produção capitalista.
Escrito por Âncora às 18h33
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Da Instituição Psiquiátrica às Instituições Prisionais
Emblema da violência institucional, o Hospital Psiquiátrico, é exemplo e base da compreensão desta dinâmica, assim como do seu caráter histórico e social .
No Brasil, há mais de um século e meio, convivemos com os hospitais psiquiátricos, cujo caráter asilar e manicomial foi referência internacional. Legitimados por um saber médico que se apropria de um objeto até então estranho à medicina – o comportamento humano – passa a sequestrar e segregar todo tipo de indesejáveis sociais. Exerce seu papel frente ao processo de industrialização e urbanização, intervindo sobre o exército de reserva de mão-de-obra e sobre os trabalhadores submetidos às condições de super exploração, em especial os negros, mulheres e migrantes.
Na Ditadura Militar (1964-1985) o projeto manicomial se intensifica, inserindo cada vez mais o hospital psiquiátrico nos espaços urbanos, como instrumento de repressão política e, também, de acúmulo de capital, transformando o sofrimento psíquico em fonte inesgotável de lucro.
Desta forma, aproximadamente 2,5% da população brasileira foi internada alguma vez na vida em hospitais psiquiátricos, criando-se uma representação social do papel do hospício frente a doença mental, de aceitação diante da falta de alternativas de cuidados. Em nome do saber médico legitima-se a violência institucional: o eletrochoque, a insulinoterapia, o choque cardiazólico, o excesso de medicação, a cela forte, a camisa de força, o espancamento, o castigo, a distância da família e dos amigos, a perda definitiva do emprego, a rotulação e a estigmatização e, se sobreviver, a morte civil. Violência encoberta pela cumplicidade de técnicos, às vezes submetidos à mesmas condições de cronicidade institucional, e pela ação corporativa de entidades de classe. Por extensão ficam impunes a classe dominante, os donos dos meios de produção, os reprodutores da ideologia dominante na escola, na família e nas instituições de saúde. Uma rede bem montada de produção da loucura e de perpetuação do sofrimento.
Os interesses ideológicos, econômicos, políticos e lucrativos, são fundamentais na constituição e permanência da lógica manicomial, sem os quais é impossível compreender a cultura de massa de intolerância com os diferentes, a segregação da loucura e do sofrimento como fato naturalizado, a invalidação das singularidades e das subjetividades desviantes, o sequestro das identidades, enfim da cumplicidade de propósitos entre Sociedade, Estado e Instituição Psiquiátrica. Com esta crítica nasce a luta por reforma psiquiátrica no Brasil, pautada por um grande movimento social nacional, inicialmente (1975 até 1987) de recorte profissional com predomínio dos trabalhadores de saúde mental, no seio da luta contra a ditadura militar e por democracia.
Escrito por Âncora às 18h32
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